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\autor{Gustavo Noronha Silva\\
José Nailton Silveira de Pinho}

\titulo{Fichamento:
\\História e Crime}
\comentario{Trabalho apresentado a disciplina História Social
  do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de 
  Montes Claros
  \\Orientador: Irineu}
\local{Universidade Estadual de Montes Claros / UNIMONTES}
\data{outubro / 2003}

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História e Crime}
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\begin{document}

\capa

\local{Montes Claros}

\folhaderosto

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% \setcounter{page}{3}

\noindent 
CALEIRO, Regina Célia de Lima. \emph{História e Crime: quando a mulher
é a ré Franca 1890-1940}. Montes Claros: Unimontes, 2002. 168 p.

\secao{O crime na historiografia}

\begin{quote}
(...) além das mulheres vitimizadas, os processos-crime evidenciaram
a  presença feminina  no  mundo do  crime  na condição  oposta. Era  o
registro da presença das que se diferenciaram da maioria, daquelas que
participaram   como  elementos  ativos   das  práticas   criminosas  e
demonstravam  a  transgressão  jurídica  feminina  aos  comportamentos
sociais convencionais. (p.~31)
\end{quote}

Em sua  investigação anterior  ao livro fichado,  a autora  detectou a
presença feminina no  crime, não apenas como vítimas,  mas também como
aquela  que  comete  o  crime.  Fazendo uma  revisão  da  bibliografia
existente sobre  o tema,  a autora lança  mão de Michel  Foucault para
entender os avanços acontecidos nas  teorias penais a partir do século
XVIII.

No  Brasil do  final do  século XIX,  a condenação  era  desigual para
homens e mulheres em casos  de infidelidade conjugal, recaindo sobre a
mulher a pena mais árdua.  Antônio Luiz Paixão e Ruben George Oliveira
são consultados para  o entendimento de como o  crescimento urbano e a
marginalização produziram violência. Além de outros autores, também se
recorre  a  Carlos  Antônio   Costa  Ribeiro,  que  demonstra  como  a
desigualdade racial  é relevante na  aplicação das penas  e absolvição
dos culpados.

Em finais do século XIX e  início do século XX, a autora Rachel Soihet
detectou a  vontade do complexo  judiciário e policial  em livrarem-se
das mulheres que, por sua  condição social se viam obrigadas a criarem
renda em suas próprias casas, nos centros das cidades, local em que os
reformadores urbanos queriam desenvolver mudanças e ``limpezas''.

As estratégias de defesa e ataque em julgamentos de homicídios ligados
à  paixão, no  casamento ou  fora dele  foram investigadas  por Mariza
Corrêa.   A imagem construída  (ou atacada)  para os  homens era  a do
cidadão  que fornecia  todas as  necessidades materiais  à  família. A
mulher ideal, como era defendida ou  atacada, era a que cuidava bem do
marido e filhos e era  fiel.  As mulheres receberam penas mais brandas
e menos  condenações, e eram apresentadas como  vítimas permanentes da
vida em comum com os homens.

\secao{Onde Surgiram as criminosas}

A pesquisa  foi feita  privilegiando a região  de Franca,  nordeste do
Estado de São Paulo. Uma cidade de economia rural, participou do ciclo
do café,  atraindo imigrantes que substituíam a  mão-de-obra escrava e
teve o grão como seu principal produto, na época da república.

Uma comunidade  tipicamente rural,  em que todos  se conheciam.  Diz a
autora:

\begin{quote}
(...) encontrei no Museu  Histórico Municipal, desenho legendado de um
pintor  do  início do  século  que retrata  uma  cena  do Tribunal  do
Júri. Reunido no  pátio interno da cadeia, termina  por deliberar pela
absolvição do criminoso,  por estar a mãe a  implorar pelo filho. Este
relato corresponde a uma realidade social da época conforme atestam os
julgamentos  dos processos-crime  utilizados nesta  pesquisa marcados,
primordialmente, pela benevolência. p.~42
\end{quote}

\secao{A influência das teorias Clássica e Positivista}

O   Código  Penal   brasileiro  entrou   em  vigor   antes   mesmo  da
Constituição.  Era  importante  organizar  a  sociedade,  desfazer  as
disparidades jurídicas. Inicialmente influenciado pela teoria clássica
do direito  penal, tornou-se  depois influenciada pelo  positivismo. A
primeira culpava o indivíduo por  seus atos absolutamente, por crer no
livre-arbítrio absoluto. A última observava o contexto social e outros
fatores mais proximamente.

A  influência  positivista,  através  de Cesare  Lombroso,  causava  a
criação  de imagens  de criminosos.  A mulher  criminosa,  conforme os
autores, seriam reconhecíveis em três modalidades:

\begin{quote}
A   criminosa  nata   seria   dotada  de   intenso  erotismo,   grande
inteligência, em torno o  qual agrupavam-se caracteres negativos como:
coragem, energia,  gostos viris pelas bebidas alcoólicas  e pelo fumo,
incapacidade para as funções maternais, disposição para a aventura e o
ócio. Esse  tipo de criminosa  demonstraria uma grande tendência  a se
confundir  com  o  tipo  masculino  e  sua  inteligência  deveria  ser
traduzida por uma forma astuta de perpetrar as mais diversas formas de
violência.
\end{quote}

Os outros  dois tipos, as criminosas  por ocasião e  por paixão seriam
mais numerosos. As primeiras  arrependiam-se facilmente e eram capazes
de  amor  ideal por  um  homem. As  últimas  cometeriam  seus atos  na
juventude, período de plenitude sexual.

O pensamento de Lombroso foi  detectado nos profissionais de justiça e
advogados  da época,  que  procuravam caracterizar  os criminosos  nas
classes definidas pelo autor.

Alzira   Lobo   de  Arruda   Campos   demonstrou   como  as   mulheres
revolucionárias foram tidas  como ignorantes, escolhidas especialmente
pelos  comunistas  para  que  elas  não representassem  risco  a  seus
parceiros.

\secao{A construção do modelo feminino ideal}

As influências positivistas atingiam a  imagem que se tinha de mulher:
dona-de-casa,  mãe,  esposa  e  musa  inspiradora  do  marido.  Com  a
necessidade  de educação  formal  dos jovens,  no  entanto, se  tornou
necessário fazer da mulher uma transmissora de conhecimentos e deveres
sociais, sem  perder de vista, no  entanto, o seu papel  de senhora da
casa.

As mulheres foram educadas com os conceitos da Igreja ultramontana. Os
positivistas  incentivaram  a  colocação  da mulher  num  pedestal  de
altruísmo,  para  evitar que  olhasse  seus  próprios interesses,  mas
sempre os de seu marido e  filhos. O casamento de interesses começou a
ser suprimido e a união  de pessoas ligada à sexualidade e afetividade
começou a ser ``permitida''.

As  mudanças  causadas  no  trabalho  operário  pela  organização  dos
positivistas acabou levando mulheres que não podiam depender de outras
pessoas a  ocuparem postos de  trabalho. As amas-de-leite  começaram a
surgir  e  ser  duramente  criticadas, como  pessoas  que  transmitiam
doenças, em uma tentativa de  convencer as mulheres a se lembrarem das
suas obrigações morais de mulher,  que não afrouxaram com a chegada de
novas responsabilidades. Outras estratégias foram adotadas:

\begin{quote}
O trabalho feminino  foi responsabilizado pela desintegração familiar,
a baixa escolaridade entre as  crianças e os jovens, pela delinqüência
e o desemprego  masculino. As falhas na organização  do sistema, nesse
sentido, foram  descaracterizadas como tal e revertidas  em direção da
participação das mulheres no mercado de trabalho.
\end{quote}

\secao{A Mulher Pública}

Em contraposição à mulher ideal,  a autora mostra como foi desenhada a
idéia da  meretriz. A idéia geral  era de que as  mulheres se tornavam
prostitutas porque  queriam, já  que trabalhar era  necessidade apenas
para   solteiras,  transitoriamente,   e   boas  mulheres   certamente
arranjariam um marido que as sustentasse.

Muito mais do que criar a imagem da meretriz, essas táticas pretendiam
reforçar a figura contrária, da mulher ideal.

\begin{quote}
(...) Outras,  como as que  foram privilegiadas enquanto  objeto desta
pesquisa, não cumpriram sua ``missão'' e evidenciaram a resistência ou
simplesmente  a impossibilidade  de,  cotidianamente, corresponder  ao
ideal proposto.
\end{quote}

A  autora acredita  que as  criminosas  da época  simplesmente não  se
enquadravam nesse modelo de mulher ideal, e por isso se rebelaram e se
tornaram criminosas.

\secao{Uma documentação valiosa}

A  documentação utilizada no  livro é  do Arquivo  Histórico Municipal
Hipolito  Antonio de  Pinheiro, com  3250 processos-crime.  Apenas 4\%
desses interessam à pesquisa, por serem as mulheres as criminosas. Com
a excessão  dos crimes sexuais,  que foram excluídos da  pesquisa pela
delimitação do  tema, os  debates perante o  Tribunal do Júri  não são
transcritos.

\begin{quote}
Desmistificar  estereótipos femininos  de  docilidade, submissão,  mãe
exemplar e esposa dedicada permitiu o reconhecimento das mulheres como
sujeitos históricos capazes  de adequar comportamentos idealizados com
atitudes  alternativas e estratégias  de sobrevivência,  resistência e
rebeldia, sem contudo, tentar examiná-las de seu papel de criminosas.
\end{quote}

\secao{O perfil das indiciadas}

\begin{quote}
As história  das mulheres  criminosas francanas confirmaram  um espaço
feminino  cujo   denominador  comum  é  a  pobreza.   Da  leitura  dos
processos-crime  emergiram  pequenas  indicações que  demonstraram  as
precárias  condições  financeiras  em  que  sobreviviam  as  rés  e  a
constatação  de  que,  geralmente,  seus  envolvimentos  afetivos  não
resultavam em segurança econômica.
\end{quote}

É tênue a linha que liga a  pobreza com crime. O que não foi diferente
em Franca,  nesta situação  paupérrima as mulheres  se viam,  em dados
momentos, encurraladas e, distante do que se pensa, reagiam, até mesmo
brutalmente.

Não bastasse  a situação social,  as políticas publicas de  saúde eram
extremamente   deficientes.  Quase   não   havia  atendimento   médico
especializado,  dessa  forma  se  recorria ao  misticismo  para  serem
efetuadas  as curas corporais  através de  meios estranhos  à medicina
legal.  E que,  surpreendentemente, rendiam  resultados e  inovavam no
tratamento  de certos  males. O  que nem  se cogita  numa demonstração
histórica formal,  onde o  curandeirismo só mata  e piora  a situação,
tornando o médico o único apto para a cura.

\begin{quote}
Em casos  mais complicados recorriam  a benzedeiras e  curandeiras que
manipulavam ervas  e conjuravam maus  espíritos (...). Dessa  forma, as
mulheres   substituíram  a  ausência   dos  médicos   e  empiricamente
descobriram drogas  medicinais e variados expedientes  para as mazelas
de natureza feminina, inclusive  os tocantes à reprodução. (DEL PRIORI
apud caleiro: p.~76)
\end{quote}

\begin{quote}
As mães,  de acordo com  o que foi  visto, nem sempre  correspondiam à
idealização  que   se  construiu  em   torno  de  sua   figura.  Desta
desvinculação do mito  também não ficaram de fora  as esposas. Algumas
assumiram atitudes extremas,  ou seja, tiraram a vida  de seus maridos
outras   optaram  por  atitudes   menos  extremadas   mas  francamente
contrárias  aos  padrões  culturais  disseminados  pela  sociedade  da
época. (p.~141)
\end{quote}

As  mulheres  com um  caso  instável, onde  o  parceiro  não lhe  dava
tranqüilidade financeiro,  ou nem  mesmo com elas  viviam, e  ainda as
famosas ocorrências  de esposos que  ficam divididos entre  a primeira
família  e  a  formada  com  a  amante,  ou  mesmo  pequnas  aventuras
extraconjugais, tinham que se moldar aos acontecimentos, ser fortes, e
até se  tornar chefes de  família. Se tornar agressivas  para defender
seus interesses, sua integridade física e moral.

\secao{Mulheres diversas e controversas}

\begin{quote}
As mulheres  francanas delinqüiam enquanto  jovens, resultado provável
de uma vida  sexual e social mais ativa.  Os processos-crime relativos
aos  crimes de  defloramento ocorridos  em  Franca na  década de  1930
demonstraram  que   o  maior  percentual  da   faixa  etária  feminina
concentrou-se entre 15 e 22 anos. (p.~85)
\end{quote}

\begin{quote}
As   rés  dos   processos   analisado  que   foram  registradas   como
`proprietárias' e a `donas  de pensão' na verdade dirigiam prostíbulos
e  foram acusadas por  lenocínio (...).  O perfil  geral é  de mulheres
humildes, não remuneradas ou sub-remuneradas evidenciando, desse modo,
a  criminalidade  feminina  em   Franca  como  fenômeno  adicional  da
pobreza. (p.~91)
\end{quote}

Eram muitas as imagens que se  tinham de mulher em Franca. Àquelas que
se portavam como senhoras idôneas, e praticavam lenocínio sob pretexto
de somente  alugarem quartos  e as que  se entregavam  completamente à
vida  criminosa e  eram  facilmente  notadas como  tal,  mesmo que  em
momentos que viam sua liberdade em risco, alegam, com toda hipocrisia,
que desempenhavam outras profissões.

\secao{A estigmação étnica}

Neste trecho vemos uma arma potentíssima da história nova, problematizar.

\begin{quote}
O preconceito  em relação  à cor das  indiciadas é nítido  no registro
feito pelos escrivães. Importa ressaltar  que este dado não consta dos
autos de qualificação com indicações impressas como: idade, profissão,
estado civil,  etc. Não obstante, o qualitativo  `preta' é introduzido
de maneira bem legível. (p.~94)
\end{quote}

E dessa forma se comprova por métodos de investigação de nova história
como o  preconceito só  não era formalizado,  mas realmente se  dava a
diferenciação entre raças nas conduções dos processos.

\secao{Os filhos indesejados}

O que também serve para se contrapor ao argumento sobre a resignação e
passividade  femininas é  o fato  da ocorrência  de  infanticídios. Os
casos  relatados revelam  a frieza  de  mulheres que  cometiam um  ato
triplamente  condenável, pela  lei,  pela moral  social  e pela  moral
cristã. E é  com maior surpresa que se contempla  o fato de enterrarem
seus filhos nos seus quartos (dormitórios) e quintais.

Quando suas  práticas abortivas falhavam, esta era  a opção encontrada
para o  controle de natalidade.  Ambas as práticas foram  executadas e
condenadas por muitas  vezes em situações em que não  se contava com a
benevolência  dos juízes.   E não  se pode  se esquecer  dos  casos de
infidelidade e promiscuidade  que levam a este extremo,  onde a mulher
grávida não conta com compromisso legal  ou moral do pai da criança. E
assim toda a responsabilidade fica sobre a mãe.

\begin{quote}
Por  outro lado,  é  clara a  situação  ilegítima dos  relacionamentos
amorosos destas  mulheres, mães também  de outras crianças.  Os homens
não   se  responsabilizavam   pela   sua  prole   relegando  às   suas
companheiras,  ao  abandoná-las, o  ônus  moral  e  financeiro da  sua
criação.  Deste modo  é possível  que  ao condenar  uma mulher  nestas
condições de vida, a  justiça institucionalizada remeteria à mesma, ou
à  sociedade  como  um  todo,  o ônus  da  responsabilidade  sobre  as
crianças, que, mal ou bem, estavam sendo cuidadas pelas mães.
\end{quote}

\secao{O ``lar amargo lar'' e A benevolência da justiça}

\begin{quote}
No  imaginário feminino  em geral,  o ``lar  doce lar'',  aparece como
lugar  propício  onde  as  mulheres desenvolvem  suas  características
positivas, especialmente com  relação à afetividade. Entretanto, basta
atentar na  leitura dos processos, para perceber  que esta idealização
tomou, por diversas vezes, um contorno diverso. (p.~120)
\end{quote}

Os casos  de matricídio vem  demonstrar que as  desavenças domésticas,
como traição  e violência, podem  incitar em mulheres  consideradas de
boa índole e  subservientes, uma reação também violenta,  que pode ser
geradora de  óbito. O  que foi  bem avaliado nos  processos é  que aos
olhos  do juiz, e  graças a  testemunhos de  vizinhos e  amigos, estas
mulheres  foram favorecidas com  a absolvição,  por serem,  na verdade
vítimas de  seus maridos que  depois de muito sofrerem  se revoltaram,
agiram em legítima defesa.

\secao{Os amantes e a defesa da honra}

\begin{quote}
Os homens apaixonados também  deixaram alguns traços de sua identidade
nos processos crime. Foi o  que ocorreu com Elias Crispim de Oliveira,
casado,  escrivão, amante  de  Ana  Maria de  Jesus,  de trinta  anos,
solteira  que se declarava  prostituta. Morto  com tiros  de garrucha,
dentro da casa da ré que ele sustentava. (p.~123)
\end{quote}

Mulheres  em defesa da  honra de  seus filhos  e da  própria cometeram
inúmeras e variadas contravenções.  Desde ``amantes infiéis'' que foram
mortos, a  criminosos que as agrediram  ou a seus  filhos que sofreram
retalhações.  Neste  último  nota-se  influencia  das  mães  até  pelo
provável fato da inexistência de  um pai conhecido e próximo que possa
defender os interesses e a honra de seus filhos.

\secao{As prostitutas e As horizontais}

\begin{quote}
A historiografia local não faz  referencia à `profissão mais antiga do
mundo'.  Foi   preciso,  portanto,  recorrer  à   contribuição  de  um
memorialista  par  ilustrar  alguns  aspectos relativos  ao  tema.  Na
descrição  das  prostitutas  evidenciam-se os  estereótipos  femininos
atribuídos às meretrizes. (p.~129)
\end{quote}

Esta  denominação não  era muito  utilizada, mas,  graças a  relatos e
interpretação  de  alguns  processos,  nota-se claramente  a  presença
destas profissionais na cidade de Franca.

Em  dados  momentos  eram  nominadas de  `Horizontais',  denominação
própria da região estudada.

\secao{As mães de ``vida fácil'' e a crueldade materna}

\begin{quote}
Nesta  dualidade de  papéis, mãe  e `mulher  da vida',  as prostitutas
sobreviviam  num  clima  de  violência.  Obrigadas  pela  profissão  a
conviver  com   os  mais  variados   tipos  de  fregueses,   (...)  que
apresentavam  uma  ameaça  constante  à  sua integridade  física  e  à
segurança de seu filhos. (p.~136)
\end{quote}

\begin{quote}
Embora  extremamente cruel,  faz-se  necessário lembrar  que em  nosso
passado histórico o estupro de crianças e de mulheres não se constitui
em  prática   excepcional  conforme   foi  constatado  na   São  Paulo
oitocentista  pela professora Alzira  Lobo de  Arruda Campos.  De modo
abrangente `a  violência sexual dos  mais fortes sobre os  mais fracos
rotinizava as  relações sociais, revelando  o poder onipotente  que os
homens podia alcançar sobre as mulheres e crianças' (p.~138)
\end{quote}

Além  de tudo  isso, ainda  fica  claro que  não era  nada saudável  a
educação  das crianças  que  viviam  sob estas  condições.  E o  fatal
caminho que os aguarda, não tendo expectativas de um futuro diferente,
vivendo  em meio  a  violência  e a  promiscuidade,  e sendo  vítimas,
casualmene de agressões física e sexuais.

\secao{As complexas relações de vizinhança}

\begin{quote}
As moradoras nas  colônias das fazendas da região  tinham que conviver
com pessoas  pelas quais não experimentavam qualquer  tipo de simpatia
ou  identificação. A  distância da  cidade,  onde os  interesses e  as
amizades  poderiam  se  diversificar,  aproximava  mais  as  mu-lheres
desencadeando   a   falta  de   privacidade   e  agravando   situações
conflitantes. (p.146)
\end{quote}

Fica claro como foi falha e obrigatória a urbanização do município com
esta  afirmação. O  grande problema  da cidade  é comum  ao  do campo,
rinchas, mágoas e desafetos, mas  é agravado pela proximidade à qual é
sujeitada na  cidade. Agora  ela pode ver  sempre sua rival,  por está
morar perto de  sua casa, ou freqüentar os  mesmos lugares. Uma pessoa
tem  um  acesso  muito fácil  à  intimidade  alheia  e tudo  isso  foi
promovedor de  grandes desaven- cãs, e  assim a cidade deixa  de ser o
lugar perfeito, onde reina a Lei, o sonho de todo o camponês.

\begin{quote}
As regras de vizinhança não permitiam a invazão de casas e muito menos
da  apropriação, sem o  consentimento da  proprietária, de  animais ou
objetos de estimação. Esta tentativa  de preservar pelo menos um pouco
da própria intimidade ocorria tanto  entre as mulheres que habitavam a
zona rural quanto entre as moradoras da cidade. (p.~148)
\end{quote}

\end {document}
