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\autor{Gustavo Noronha Silva}

\titulo{Evans-Pritchard}
\comentario{Trabalho apresentado a disciplina Antropologia III
  do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de 
  Montes Claros
  \\Orientador: Prof. Carlos Caixeta}
\local{Universidade Estadual de Montes Claros / UNIMONTES}
\data{2004}

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\begin{document}

\local{Montes Claros}

%\folhaderosto

\noindent
EVANS-PRITCHARD, E. E. \emph{Os Nuer}. São Paulo: Perspectiva, 1978.
Introdução; capítulo 3, ``Tempo e Espaço''; capítulo 4, ``O Sistema
Político''.

\capitulo{1. Introdução}

E. E. Evans-Pritchard, em seu livro sobre os Nuer pretende fazer,
segundo ele próprio, não uma análise sociológica a respeito desse
povo, mas uma etnologia. Poderia-se dizer, no entanto, que o autor
acaba por fazer uma análise da estrutura social Nuer, o que alguns
chamariam de antropologia social, como era o caso de Radcliffe-Brown.

\capitulo{2. Tempo e Espaço}

Evans-Pritchard afirma que as relações sociais dos Nuer são
influenciadas por limitações ecológicas. O sistema social é um sistema
dentro do sistema ecológico, dependente dele, mas em parte existindo
por direito próprio. Segundo o autor, em última análise a maioria,
senão todos os conceitos de tempo e espaço são determinados por
motivos ecológicos, mas os valores encarnados por eles dependem também
de princípios estruturais.

Ele distingue os conceitos de tempo espaço em dois tipos: aqueles que
são principalmente influenciados pelo meio ambiente, o tempo
ecológico, e os que são principalmente reflexos das relações mútuas
dentro da estrutura social, o tempo estrutural.

O ciclo ecológico se compõe de um ano, que os Nuer dividem em 4
estações demarcadas por aspectos que influem nas necessidades do gado
e no suprimento de alimentos: com a chegada das secas as pessoas
começam a deixar as aldeias e se mudarem para acampamentos e se
concentrarem no gado e na pesca, o período de mudança chama-se jiom e
a estada nos acampamentos é chamada de mai. A mudança de volta para as
aldeias, no início do período de chuvas é chamada rwil e à estada nas
aldeias, onde se concentram na horticultura chamam tot.

Evans-Pritchard demonstra com vários exemplos como os Nuer têm maior
facilidade em falar do tempo em relação às atividades que executam, ao
invés de falarem abstratamente ou em números. As divisões ecológicas
de movimentação do sol e das estrelas, por exemplo, são levadas em
consideração, mas são de certa forma apenas uma orientação vaga,
enquanto as atividades definem as referências mais concretas. Da mesma
forma, as noções de tempo mudam durante o ano: durante a seca a
contagem diária do tempo é mais uniforme e precisa, dadas as condições
desfavoráveis do clima.

Assim como no caso do tempo, Evans-Pritchard divide o conceito de
distância para compreensão dos Nuer em distância ecológica e
estrutural. A distância ecológica tem a ver com limitações físicas
impostas por vegetação ou presença de águas nas proximidades. A
distância estrutural se refere às relações estabelecidas entre os
indivíduos e as tribos. Segundo o autor, por exemplo, uma tribo Nuer
que esteja bem mais distante fisicamente de uma outra tribo Nuer,
ainda assim, está mais próxima do que uma tribo dos dinka, para os
Nuer, e a distância entre conjuntos etários\footnote{Os Nuer agrupam
  pessoas em grupos que representam as diversas gerações vivas.}
sucessivos é menor que a distância existente entre conjuntos etários
não sucessivos.

\capitulo{3. Guerras e O Sistema Político}

Segundo Evans-Pritchard existe pouca solidariedade interna nas tribos
Nuer e os conflitos são constantes. Problemas que não sejam de
homicídio são resolvidos com ressarcimento material à família do
violentado pela família do infrator. Existe uma obrigação envolvida
nesse processo, e, portanto, existe de certa forma uma lei dentro da
tribo. Os casos de homicídio são resolvidos com a vendeta, ou seja, a
família do morto se empenharia em matar o assassino para vingar o
morto. Esse tipo de conflito é mediado por um chefe da pele de
leopardo, cuja única função é, como dito, mediar, não arbitrar. Um
assassinato também é resolvido com entrega de gado como ressarcimento
pela morte, mas segundo o autor uma vendeta nunca termina para os
Nuer, e em última análise o real pagamento é sempre tirar uma vida da
família adversária.

Entre tribos e entre segmentos de tribos, porém, existe uma
solidariedade grande. Uma determinada tribo pode ter varias
sub-divisões que o autor chama seções. Essas sub-divisões por vezes
estão em guerra entre si e, nesse evento, os indivíduos se identificam
como membros das suas respectivas sub-divisões. No entanto, se uma
dessas seções entra em conflito com alguma outra seção de nível
superior\footnote{O autor não usa tais termos em sua descrição. A
  referência feita aqui é à divisão sistematizada por Evans-Pritchard,
  classificando seções como primárias, secundárias, terciárias e daí
  em diante.} ao dela, as duas seções que até então se encontravam em
conflito se unem e voltam a se identificar como sendo uma unidade que
passa, então a lutar com os agressores externos. Isso significa que as
várias sub-divisões de uma tribo se dão trégua em quaisquer batalhas
que estiverem engendrando internamente na ocasião de a tribo a que
pertencem entrar em conflito com outra tribo.

O povo Nuer se organiza, segundo o autor, com base nas práticas
sociais como as vendetas e o conflito entre seções e tribos. Apesar da
aparente aproximação com Radcliffe-Brown ao falar do papel dos
conflitos na vida social, Evans-Pritchard quer dizer, na verdade, que
os conflitos são partes importantes da manutenção da estrutura social,
diferentemente de Radcliffe-Brown, que pensa no conflito como
orientação das formas de pensamento e não como algo cuja função seja
balancear a estrutura.

Dado esse contexto, um fato importante relatado por Evans-Pritchard é
a falta de centralidade governamental. O chefe de pele de leopardo,
por exemplo, como vimos anteriormente tem tão somente a função de
mediador. No entanto, Evans-Pritchard notou que nos tempos mais
recentes em relação à sua pesquisa, começaram a surgir profetas,
pessoas que chegaram a reunir certo poder político. O autor faz uma
relação explícita de causalidade entre a oposição do povo Nuer aos
invasores e o surgimento dos profetas. Penso que poder-se ia fazer uma
análise funcionalista desse fato, já que podemos perceber que esse
início de poder religioso e de governo aparece justamente quando a
sociedade Nuer passa por grandes mudanças no seu cotidiano, sofrendo
diversos ataques de colonizadores. O surgimento de líderes espirituais
que reúnem poder político pode ser vista como possível forma de
proteger a unidade do grupo.

\capitulo{4. Conclusão}

Evans-Pritchard, como dissemos, se preocupa em estabelecer os
princípios estruturais da sociedade Nuer, embora fique claro que em
seu trabalho a etnologia ocupa a maior parte do discurso do autor em
seu livro Os Nuer. Embora essa não fosse, talvez, a intenção inicial
de Evans-Pritchard, fica também claro que era algo realmente
necessário, dada a falta de material disponível com informações
detalhadas sobre esse povo. Evans-Pritchard se preocupa então em
começar esse trabalho e, a partir dele, chega a várias conclusões
sobre a estrutura da sociedade Nuer, que procurei exemplificar no meu
fichamento.

\end{document}
