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\autor{Gustavo Noronha Silva}
\titulo{O Capitalismo Atual e o Software Livre}
\local{Montes Claros}
\data{novembro / 2003}

\begin{document}

\capa
\folhaderosto

\tableofcontents

\chapter{Introdução}

Por que se preocupar com  Software Livre? Que importância tem discutir
esse       tema?      Em       um       outro      texto\footnote{Veja
http://people.debian.org/~kov/software.html/} discuti  de modo simples
e direto  a importância da  escolha que as pessoas,  escolas, governos
fazem do software que usam no seu dia-a-dia.

Ficou  de fora,  no  entanto,  o que  talvez  seja o  que  há de  mais
importante a ser  dito sobre esse movimento: sua  importância social e
seu papel de vanguarda na sociedade  atual. Há quem diga que o chamado
Movimento do  Software Livre é apenas  a ponta visível  de uma gigante
revolução social que está se operando no mundo.

Neste  texto pretendo  discutir alguns  conceitos relativos  à maneira
pela qual  a tecnologia  pode ser usada  para dominar uma  sociedade e
privilegiar o grande capital e  como o Software Livre vem derrubando a
situação atual.


\chapter{Formas Atuais de Exploração}

Marx, ao estudar o capitalismo, detectou uma forma sutil de exploração
dos capitalistas sobre os trabalhadores. De acordo com ele,

\begin{citacao}
... O possuidor do dinheiro pagou o valor diário da força de trabalho;
pertence-lhe, portanto,  o uso dela durante  o dia, o  trabalho de uma
jornada inteira, e  o valor que sua utilização cria num  dia é o dobro
do  próprio  valor-de-troca.  Isto  é  uma  grande  felicidade para  o
comprador,      sem       constituir      injustiça      contra      o
vendedor. \cite[p.~227]{marx-mais-valia}
\end{citacao}

Essa  é a chamada  mais-valia absoluta.  Atualmente, no  entanto, mais
comuns  e  mais sutis  é  uma  outra  forma de  exploração,  designada
\textit{mais-valia relativa}:

\begin{citacao}
... `com  a passagem do  capitalismo concorrencial para  o capitalismo
monopolista,  o método  dominante de  produção também  se  modifica: a
produção  da mais-valia  absoluta dá  lugar à  extração  da mais-valia
relativa,  que se  torna  a  mola propulsora  da  acumulação quando  a
maquinaria domina  o processo  de trabalho ,  caracterizando-se aquilo
que Marx chamou de submissão  ou sujeição real do trabalho ao capital.
E, com  a produção  mecanizada do capital  monopolista, a  produção se
torna  ainda  mais altamente  socializada  que  na  etapa anterior:  o
trabalho produtivo chega a tomar  a forma de trabalhador coletivo, uma
força de trabalho integrada  toma o lugar dos trabalhadores artesanais
individualizados'     ...      (Laurence     Harris     citado     por
\citeauthor{capatualsubj}, \citeyear{capatualsubj})
\end{citacao}

Um  exemplo bem  simples  disso é  o  terminal de  venda de  ingressos
computadorizado, já presente nas  estações de metrô de algumas cidades
brasileiras.  Elas  substituem  trabalho  humano  e  chegam  a  exigir
trabalho  adicional  do  consumidor.  Estabelecidas tais  relações,  a
extração de  mais-valia, como  já foi dito,  se desloca ainda  mais em
direção ao consumo.

Nos últimos tempo, porém, com o advento de mídias\footnote{Nesse caso,
mídia  se refere  principalmente  ao meio  físico  de distribuição  de
conteúdos,  não à  produção artística  ou  intelectual disponibilizada
através dele.} de maior qualidade  e de novas técnicas de duplicação e
criação de  conteúdos, mais  eficientes e baratas,  uma nova  forma de
exploração veio à tona: a \textit{mais-valia virtual}.

De acordo com Mance,

\begin{citacao}
A acumulação de  mais-valia virtual é possível a)  graças à reprodução
virtual de produtos finais intangíveis ou ao pagamento pelo direito de
uso  signos  que se  convertem  em  mercadorias,  como softwares,  por
exemplo,   que  são   conhecimentos  criativamente   digitalizados  em
linguagens  binárias de programação,  ou outras  informações ordenadas
significativamente  pelo  trabalho  intelectual humano,  passíveis  de
direitos autorais, como patentes sobre códigos genéticos alterados por
engenharia genética, por exemplo; b) graças à venda de mercadorias com
preços elevados frente  aos produtos similares, em razão  de que sobre
elas estejam aplicados determinados signos que operam socialmente como
interpretantes  valiosos por  certa parte  do mercado  consumidor, que
paga  mais para  desfrutar  de tal  propriedade  sígnica vinculada  ao
objeto, por  exemplo -,  c) ou pela  aplicação performativa  de signos
sobre outros signos que  possuem caráter econômico de representação de
valor ...\cite{capatualsubj}
\end{citacao}

Ao presente estudo, o ponto  \textit{a} é certamente o mais importante
a   ser   levado  em   conta,   visto   que   tratamos  de   um   bens
intangíveis\footnote{Temos  que  ``Bens   corpóreos  são  os  que  tem
existência  concreta,  perceptível  pelos  sentidos  (res  quae  tangi
possunt).   Bens  incorpóreos  são  os que  tem  existência  abstrata,
intelectual. Os bits  não possuem uma forma corpórea,  pois existem no
campo   abstrato  dos   registros  digitais.    Destarte,   devem  ser
considerados     como    bens     incorpóreos     ou    intangíveis.''
\cite{regvirtual}}  quando  falamos  sobre  software. No  entanto,  os
pontos  seguintes  são, também,  importantes,  visto  que vivemos,  no
mercado de  software mundial, um  monopólio de dimensões  imensas.  Um
monopólio  é,  certamente,  capaz  de  criar  signos  que  permeiem  o
pensamento das pessoas, como veremos posteriormente.

Examinemos, então,  o caso das  grandes empresas de software.   O caso
mais  emblemático, sem  dúvida, é  o da  Microsoft. Sendo  uma empresa
relativamente  nova, a  Microsoft tem  atualmente o  domínio  de quase
100\%  dos computadores  do mundo  sendo controlados  por  seu sistema
operacional, o Windows  e seus executivos figuram na  lista dos homens
mais ricos do mundo.

Mesmo diante desses dados, o número de pessoas usando computadores com
Windows no mundo certamente não é tão grande. Cogita-se que apenas 8\%
dos brasileiros  usem computadores. Há marcas e  produtos com mercados
bem maiores. Para entender esse  fato é preciso entender o processo de
``fabricação'' de um software.

Quando  se fabrica  um carro,  como  se calcula  o valor  de troca  da
mercadoria   resultante?   Somando-se   todo   o   tempo   socialmente
necessário\footnote{A soma  do tempo gasto por todos  os envolvidos no
processo de  fabricação do  produto final, até  mesmo aquele  gasto na
produção das  matérias-primas e na reprodução da  força de trabalho.},
mais  qualquer desgaste  da máquina  e  a mais-valia,  absoluta, ou  o
lucro,  provavelmente aproximaremos com  bastante exatidão  tal valor.
Cada carro  exige o  mesmo gasto de  tempo, matérias-primas  e capital
para ser produzido, além do custo do planejamento e projeto iniciais.

No  caso  dos  softwares de  computador,  o  custo  da empresa  é  bem
minimizado. Contamos  o tempo  socialmente necessário, o  desgaste dos
equipamentos, mais  quaisquer outros  gastos com materiais  apenas uma
vez. A  duplicação desse bem  exige um custo mínimo  desprezível. Isso
gera a mais-valia virtual, que ultrapassa em muito a exploração apenas
do  operário\footnote{Aqui  entendido,   mais  amplamente,  como  todo
trabalhador  assalariado.},  e  se  torna  uma exploração  de  toda  a
sociedade. Esse fato que  acabamos de constatar gera outros resultados
práticos que veremos adiante.

\chapter{Alienação e Propriedade}

Há muito tempo a especialização  vem acontecendo em todos os níveis da
sociedade,  na forma  como trabalha  e  produz. Atualmente  a rota  da
especialização  continua  a ser  seguida,  como  forma  de melhorar  a
atuação   do  trabalhador   e,   até  mesmo,   de  proteger   segredos
industriais. É  o caso da grande  empresa de software  que não permite
que   um  programador   conheça   todo  o   código   do  seu   sistema
operacional\footnote{Software    básico    para    operação   de    um
computador.}. Como em outras épocas, essa especialização acaba levando
à alienação do produtor em  relação ao seu produto. Diferentemente dos
proletários das fábricas de  carros, os programadores podem ter acesso
ao  bem que  produzem, na  maioria das  vezes, mas  não tem  acesso ao
conhecimento contido nele.

Isso  nos  leva a  uma  reflexão mais  profunda,  não  apenas sobre  a
possibilidade  de usufruto dos  produtos da  sociedade, mas  também ao
usufruto do conhecimento gerado  e empregado nesses mesmos produtos, o
que nos traz o conceito de \textit{Propriedade Intelectual}.

Como  já nos  lembrou Mance,  não são  apenas os  bens  intangíveis os
responsáveis pela mais-valia virtual. A cobrança de \textit{royalties}
pelo  uso de  idéias patenteadas  e do  direito de  cópia  são, também
geradores de mais-valia virtual.  É importante dizer, aqui, que quando
se licencia  um software não se  está comprando o  software. A licença
funciona  como  um aluguel,  em  que  o  proprietário do  software,  a
empresa, dá permissão  ao cliente de usá-lo sob  certas condições, até
mesmo as  atualizações de segurança  passam por essas  condições, como
podemos    ver    na   licença    do    Windows    NT   4.0    Service
Pack\footnote{`Service  Pack' é o  nome dado  pela empresa  a pequenas
emendas que devem ser aplicadas ao sistema para atualizá-lo em relação
a problemas de segurança e outras características e/ou problemas.}:

\begin{citacao}
O  Software Atualizado  é licenciado  a você  sob os  mesmos  termos e
condições contidos  no Contrato de  Licença de Usuário  Final ("EULA")
fornecido com o  Microsoft Windows NT Server versão  4.0 ou Windows NT
Workstation versão  4.0 (doravante chamados  conjuntamente "Windows NT
4.0") e/ou  o Windows NT  4.0 Option Pack.  Caso você não  concorde em
vincular-se  aos  termos deste  EULA,  você  não  estará autorizado  a
utilizar o Software Atualizado.

(...)

A  Microsoft  retém  todos  os  direitos,  titularidade  e  interesses
relacionados ao Software Atualizado. Todos os direitos que não estejam
expressamente concedidos são reservados à Microsoft. \cite{nt4sp4}
\end{citacao}

Marx  acredita,   como  Rousseau  e,   ao  que  tudo   indica,  Albert
Einstein\footnote{Einstein teria dito algo como ``Criatividade é saber
esconder bem as  suas fontes''.}  também, que tudo  que é produzido no
mundo  é,   na  verdade,  mais  que  inovação,   uma  produção  social
histórica.   Para  a   criação  do   CD,  muito   provavelmente  foram
pré-requisitos a existência do  disco de vinil, de conhecimentos sobre
a manipulação de lasers e de dados digitais. Poderia, então, o criador
do  CD, tendo se  apoiado em  tantos outros  conhecimentos, determinar
como sua a propriedade do conhecimento derivado?

É  exatamente essa  a  pergunta  que devemos  fazer  quando lemos  ``A
Microsoft  retém   todos  os  direitos,   titularidades  e  interesses
relacionados  ao Software  Atualizado.''  \cite{nt4sp4}. Apoiada  ``em
ombros de gigantes'',  a Microsoft pôde construir o  Windows. Pode ela
se  dizer  dona  do  conhecimento   gerado  e  privar  o  restante  da
humanidade?

A alienação  aqui, assim como  a mais-valia anteriormente,  se extende
para  além das  relações imediatas  de  produção para  as relações  de
consumo,  num círculo mais  amplo da  sociedade. Ter  possibilidade de
usufruir do software, como produto acabado, ao contrário do que parece
imaginar  a  maior  parte  das organizações  relacionadas  à  inclusão
digital, não tira ninguém da  alienação, que é causa real e necessária
da exclusão.

O maior  bem produzido nesse  processo, o conhecimento, fica  preso na
``fábrica'',  e as  pessoas, até  mesmo os  programadores  da empresa,
estranham e ficam alienadas à tecnologia.

\chapter{Fetichização}

A  produção  só  se  realiza  no  consumo, e  o  consumo  só  tem  seu
``arremate'' na produção. A  produção, além de satisfazer necessidades
gera  mais necessidades.  Marx  acredita que  é necessário  à produção
criar um determinado tipo de homem para consumir. O exemplo clássico é
o da carne que se come com talheres e a que se come sem. A produção de
talheres gerou a necessidade da geração de pessoas que os consumissem,
pessoas que fosssem ``civilizadas''. A própria necessidade de talheres
foi  conseqüência,  muito  provavelmente,  de algum  tipo  de  produto
comestível que exigia requinte.

Uma reclamação constante de  grupos que tentam viabilizar alternativas
ao sistema operacional Windows em  diversos setores é sempre a chamada
``cultura Microsoft''.   Mesmo que não aja  dificuldades adicionais, e
que  todas   as  necessidades  reais  e   objetivas  sejam  plenamente
satisfeitas por produtos alternativos,  muitas pessoas ainda se apegam
aos  nomes ``Windows'',  ``Word'' e  ``Excel'', signos  apresentados a
eles  como  ``informática básica''  por  qualquer  curso  de fundo  de
quintal, e até mesmo por cursos de graduação, mestrado e doutorado.

Mesmo  pessoas  que  deveriam  ser  esclarescidas no  sentido  de  não
beneficiar  um  grande monopólio  explorador  se  sentem atacadas,  ou
amedrontadas quando saem  de cena os produtos da  Microsoft, como se o
computador pudesse ser visto como terreno neutro, em que os ideais não
precisam  ser   defendidos.   Um  exemplo  disso  é   a  revista  para
publicações científicas do curso de Ciências Sociais da UNIMONTES, que
em  sua primeira  edição traz  nas normas  para publicação  o seguinte
texto:  ``Devem ser  apresentados  em letra  12,  fonte Arial,  espaço
duplo,   versão   \textit{Word  for   Windows   7.0  ou   inferior}.''
\cite{argdiscentes}

Não  basta um  texto  em qualquer  formato  que possa  ser aberto  por
qualquer programa e que esteja dentro das normas. A revista espera que
o autor tenha  adquirido uma licença do Microsoft  Word for Windows, e
que o trabalho  seja entregue no seu formato.  Os conceitos de sistema
operacional, editor  de textos e planilha eletrônica  parecem ter sido
substituídos, hoje sem maiores  problemas, por ``Windows'', ``Word'' e
``Excel''.

\chapter{A Dialética e o Software Livre}

A unidade contraditório que  temos é razoavelmente implícita, dadas as
condições apresentadas  acima.  Uma ou  mais empresas se  apropriam de
conhecimento historicamente,  socialmente produzido e  o transforma em
sua propriedade, geradora de mais-valia virtual.

As relações  geradas na  produção dos softwares  são de  exploração do
empregado  imediato, mas  também de  todo um  conjunto de  pessoas não
envolvidas diretamente no processo,  mas da mesma forma vitimadas pela
alienação.

A   negação  a   essa  forma   de  produzir   software  é   o  chamado
\textit{Software  Livre}.  A  grande   maioria  do  software  livre  é
produzido  em  um  processo  colaborativo, através  da  Internet,  por
pessoas que, na maioria das vezes, nem sequer se conhecem pessoalmente
e que  cedem seus direitos de cópia  a todas as outras  pessoas com ou
sem condições que protejam essa condição.

Pessoas  que  não  sabem  programar  nem fazer  quaisquer  das  outras
atividades necessárias à produção de um software são somente usuários,
mas também participam  da cadeia produtiva, e têm  todos os meios para
se tornarem sujeitos  do processo, mesmo que normalemnte  se limitem a
serem consumidores  do que  é produzido,  o que não  deixa de  ser uma
forma de incentivo.

De acordo  com o  site do Projeto  GNU\footnote{Projeto para  criar um
sistema  operacional  100\%  livre,   iniciado  em  1984  por  Richard
Stallman.  Veja  \url{http://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt.html}},
Software  Livre  se  refere   à  liberdade  dos  usuários  executarem,
copiarem,  distribuírem,  estudarem,  modificarem  e  aperfeiçoarem  o
software.  Mais  precisamente,  ele   se  refere  a  quatro  tipos  de
liberdade, para os usuários do software:

\begin{itemize}
\item{A  liberdade de  executar  o programa,  para qualquer  propósito
(liberdade no. 0)}
\item{A  liberdade de estudar  como o  programa funciona,  e adaptá-lo
para as suas  necessidades (liberdade no. 1). Aceso  ao código-fonte é
um pré-requisito para esta liberdade.}
\item{A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar
ao seu próximo (liberdade no. 2).}
\item{A  liberdade  de  aperfeiçoar  o  programa, e  liberar  os  seus
aperfeiçoamentos,  de   modo  que  toda  a   comunidade  se  beneficie
(liberdade no. 3). Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta
liberdade.}
\end{itemize}

Essas características e a forma de  produzir Software Livre dá a ele o
mérito de ser produção pela humanidade para a humanidade, ou em termos
mais  conhecidos, de  cada um  conforme sua  capacidade, para  cada um
conforme sua necessidade.

Marx acredita,  voltando à dialética, que  a super-estrutura jurídica,
filosófica,  política, ideológica  que se  forma em  toda  sociedade é
neecssariamente  provienente, inicialmente,  das  práticas e  relações
sociais de  produção. Depois de  iniciado o processo as  alterações se
tornam produto da  interação entre a super-estrutura das  idéias com a
infra-estrutura,  da forma  de  produzir a  existência,  sem que  esta
última deixe de ser determinante sobre a primeira, no entanto.

Talvez seja  exatamente nesse  ponto que a  maioria dos  defensores do
comunismo  errem,  ao defender  o  desenvolvimento  de consciência  de
classe e a  tomada do Estado pelos proletários  para atingir a negação
do capitalismo.

Como dito  na introdução,  há quem  imagine que o  Software Livre  é a
ponta de um  movimento maior que está surgindo  cuja forma de produzir
conhecimento --- que é reconhecidamente o grande bem da atualidade ---
se  difere  radicalmente  das   formas  criadas  pelas  indústrias  do
entretenimento e  do software.   Modificando objetivamente a  forma de
produção, o movimento do Software Livre, talvez inconscientemente está
criando uma  nova forma de  ver o mundo,  em que as  pessoas colaboram
entre si para gerar bens para todos.

A  palavra  \textit{inconscientemente}  usada  anteriormente  tem  uma
importância muito grande no entendimento do que foi dito. Os objetivos
do movimento do Software Livre são restritos à sua filosofia de como o
Software deve  ser produzido e  distribuído, e embaixo dessa  idéia se
encontram   pessoas  com  as   mais  diversas   convicções  políticas,
econômicas e sociais. Está longe  de ser um objetivo do movimento como
um todo a  criação de uma sociedade cujo modo  de produção se aproxime
do modo comunista.

Essa  invisibilidade das  possíveis conseqüências  que o  movimento do
Software Livre pode vir a causar facilita sua multiplicação e facilita
o desenvolvimento de um  possível substituto para o capitalismo.  Como
vários projetos do movimento do  Software Livre, o mais importante não
é pensar e projetar, mas  fazer. Anthony Towns, Gerente de Lançamentos
do Projeto Debian disse em uma discussão sobre como alguém podia criar
uma nova maneira de lançar o Debian\footnote{Projeto para construir um
sistema     operacional    universal     e    100\%     livre,    veja
\url{http://www.debian.org/}.}:

\begin{citacao}
Eu posso assegurar  a você, a partir de  experiência pessoal, que nada
disso é particularmente difícil. Se  *for* difícil, é porque você está
dificultando, e  se *você não  está* interessado em fazer  o trabalho,
por que você espera que alguém faça?\footnote{Tradução livre do autor,
a partir  do texto ``I can  assure you from  personal experience, that
none  of this  is particularly  hard. If  it *is*  hard,  it's because
you're making it hard, and if *you're* not willing to do the work, why
are you expecting anyone else to?''} \cite{debianrm}
\end{citacao}


\chapter{Conclusão}

O Software Livre vem inspirando mudanças  no modo de fazer e pensar da
sociedade. Múltiplas  pequenas iniciativas  já começam a  fazer grande
diferença.  Não poderia  haver  melhor exemplo  que  a Wikipedia,  uma
enciclopédia      a      que      todos      tem      acesso      pela
Internet\footnote{http://www.wikipedia.org}.   Mas  o  que  assusta  a
maioria  das pessoas é  o fato  de que  todos podem  \textit{editar} a
enciclopédia, melhorando, organizando  ou acrescentando verbetes, algo
talvez impensável na sociedade pré-software livre.

Nem sequer é necessário ser um herói para estar numa enciclopédia, até
mesmo o mais humilde trabalhador pode criar o verbete que fala de si.

Esse paradigma, de uma sociedade que constrói para o todo e para todos
está  longe de  ser novo,  mas certamente  o que  vemos  acontecer são
outras formas de alcançar esse objetivo.

Se o  mundo já foi pensado  o suficiente, se cabe  transformá-lo, se é
por   meio  da  modificação   das  relações   de  produção   que  essa
transformação  acontecerá, é necessário  que os  diversos interessados
comecem a tornar possíveis as condições sociais e materiais desse novo
mundo  criando  estratégias  para  perverter  o  sistema  de  produção
capitalista usando as ferramentas que ele próprio disponibiliza.

\bibliography{bibliografia}

\end{document}

